1.9.13


A gente sabe de nós

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Era tão fácil estar do seu lado naquele momento. Tudo tão simples como se os problemas lá fora não existissem. Mas existem, ainda que estar com você me faça conseguir ignorá-los. Eu tenho uma vida própria, sabe? Eu tenho coisas pra fazer além de ir correndo te ver. Antes de você aparecer pra bagunçar tudo, eu era uma pessoa normal. Dá pra acreditar nisso? Equilibrada. Sensata. Ou pelo menos eu tentava ser. Agora nem tento, nem disfarço o meu jeito de menina perdida sem você. Tô cada vez mais desastrada, estabanada, esquecida, distraída, derrubando tudo, tudo dentro de mim, você me desmontando e me desmoronando assim. 

Por exemplo, hoje acordei e olhei pro relógio. Já estava atrasada o suficiente para as mil tarefas na minha agenda. E sabe o que fiz? Virei para o lado e dormi de novo, só pra poder tentar continuar sonhando com a gente. Mais tarde quase me perdi nessa cidade enorme cheia de pessoas apressadas - tão diferentes de você - porque estava distraída demais ouvindo aquela música que traduz a nossa relação. Eu andava tão devagar, tão fora do ritmo da metrópole. Eu estava era no nosso ritmo.

Eu sei que não posso ficar te ligando sempre que me dá na telha, eu sei. Também sei que o melhor é continuar fingindo que não tô nem aí se você liga ou não, que pra mim tanto faz, porque tenho um medo enorme de que você se assuste e fuja como já fez tantas vezes. Você sabe que a gente nunca vai ter o que as pessoas chamam de relacionamento sério, você sabe. E sabe que eu não preciso dizer o quanto gosto de você, já que isso está obviamente estampado no meu sorriso ao te olhar. 

Eu não preciso te dizer o quanto acho o máximo que os nossos signos combinem tanto. Ou do quanto eu amo quando você não faz a barba. Ou quando você some e reaparece da minha vida com uma naturalidade incrível. E do quanto eu fico me achando a garota mais sortuda quando vem me buscar de carro. Seria loucura admitir que gosto até do modo que você fuma e mais ainda quando sopra a fumaça pra longe de mim? Seria sim. É por isso que eu nunca vou precisar te falar essas coisas. Você sabe, eu sei, a gente sabe. A gente se entende tanto que prefere não admitir nada, sentimento nenhum. Vamos continuar fingindo que somos apenas amigos com benefícios, é melhor. Vamos ficar embriagados e conversar sobre todo tipo de assunto banal. Vamos fazer besteiras e morrer de rir. E depois, o silêncio. Nada de "eu te amo" ou "preciso de você". Um olhar e a gente sabe. É no silêncio que a gente se entende.

3.8.13


As palavras que você deveria ter dito

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Era um domingo à noite qualquer, entendiante como todos os outros. Até que ele apareceu para salvá-la. Assim do nada, como o príncipe que não era. Buzinou em frente a porta da casa dela. Na verdade, ela não queria mais falar com ele. Isso traz problemas e eu quero paz, pensava. Mas era dessas que tem o defeito de não conseguir ficar com raiva de ninguém. Muito menos dele, muito menos quando ele lhe dizia aquelas bobagens ao pé do ouvido.

Então, com a desculpa de estar cansada demais para sair de casa a pé, entrou no carro dele. Tinha esquecido como era bom quando estavam juntos, mesmo que só como amigos. Como ele fazia as coisas parecerem mais fáceis. Ele colocou uma música no rádio do carro. Primeiro ela começou a cantar. Depois pensou que talvez aquela música linda que ela adorava, fosse uma indireta. Não era.

Os dois conversaram sobre todos os assuntos banais que podiam. O medo de que o silêncio pudesse trazer à tona as lembranças do passado e as questões não resolvidas entre eles, era maior do que qualquer coisa. Talvez dessa vez seja diferente. Talvez ele tenha mudado, ela pensou. Não tinha. Eles eram os mesmos de anos atrás, e nada pode ser consertado quando tudo fica como está. Ela logo se lembrou disso, ufa. Se lembrou de tudo que já tinha sofrido por aquele cara e que tinha decidido dar um basta em tudo. Se lembrou de como foi difícil e doloroso tomar a decisão de ficar longe dele. Difícil demais pra ele querer chegar de mansinho assim e estragar meses de tranquilidade e amor-próprio.

Na volta, ele disse: "Bom...chegamos. Você ainda mora aqui né?" Ela deu uma risada amarga, dessas que até doem de tanto que custam a sair em meio ao nó na garganta, e respondeu: "Claro." Ele apertou o volante. E ficou esperando. Esperando que ela se inclinasse e o beijasse, exatamente como fez da última vez que a levou em casa. Ela tirou a chave do bolso, abriu a porta do carro, e esperou. Talvez ele a puxasse pelo braço e dissesse tudo o que ela precisava ouvir. Não disse. Ela ia embora. Sabe-se lá quando eles iam se ver de novo e ela ia embora. E ele a estava deixando ir embora. "Faça alguma coisa, seu idiota.", foi o que ele pensou. Ela também pensou a mesma coisa, com o coração muito mais apertado que o dele.

"Então, tchau." E saiu do carro. Olhando pela janela, ainda agradeceu pela carona e deu mais um sorriso amargo, tentando fingir que estava tudo bem e que eles eram apenas bons amigos. Ele continuou olhando para frente, não queria encará-la. Não queria lembrar como era aquele sorriso, tão cheio de melancolia, que ela sempre tinha quando se despediam. "Tchau." E pisou no acelerador, deixando-a pensando que ele era o babaca que parecia ser.

21.7.13


Papo reto

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"Você não pode ver que no meu mundo um troço qualquer morreu, num corte lento e profundo entre você e eu." Cazuza


Não tenho paciência para 'sorrisinhos' simpáticos. Não para os que não forem de verdade, sabe? Principalmente quando não me sinto nem um pouco disposta a ser simpática. Não me entenda mal. Não costumo agir sempre como uma velha ranzinza e arrogante. Só de vez em quando mesmo. Mas não tenho saco pra gente que finge ser o que não é e muito menos pra gente que já é podre por dentro e nem faz questão de fingir. 

Sinceridade é coisa que admiro e não é porque falo tudo sem pensar que não penso pra falar. Bem, eu sei quando estou errada, se é o que você quer saber. Mas nunca vou admitir. Sabe por quê? Porque eu cometeria os mesmos erros outra vez. Sempre fiz o que achei certo, pelo menos naquele momento. E se depois eu perceber que estava errada, que se danem vocês. Eu fiz o que eu tava com vontade e me arrependeria se não tivesse feito. Eu sou assim, você já sabia disso quando quis se aproximar se mim. Explosiva, louca, neurótica, impulsiva e dramática. Prazer. Eu.

Todo gênio forte paga seu preço. E o meu preço foi você. Você e outros tantos que passaram pela minha vida e que eu afastei por não saber lidar com o que sentia ou simplesmente por não ter paciência pra ser legal mesmo. Não faz falta, se é o que você quer saber. Te cortei da minha vida de um modo tão rápido que nem doeu. Doeu mesmo foi ver o que a gente tinha se afundando em sentimentos tão infantis, os nossos. Você, com a sua estupidez masculina incurável. Eu, com meu pavio curto e mania de me achar sempre certa.

O negócio, cara, é que eu não suporto mais a sua hipocrisia. Tenho vontade de te perguntar "porque é que você finge se importar comigo mesmo?". Você faz questão de dificultar a minha decisão de não-olhar-na-sua-cara-nem-gostar-de-você-muito-menos-te-ligar-de-madrugada. Dá pra ter noção do quanto isso é difícil? Você sabe que eu sempre perco pra você nesses nossos joguinhos, mas deixa eu te contar um segredo: contigo eu não jogo mais. Derrubei todas as peças do tabuleiro há muito tempo. E só você não percebeu. Coitadinho.

17.7.13


No meio do amor tinha uma pedra

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Ele olha pra mim e eu me sinto bem e feliz. Você olhava pra mim e minha pernas tremiam, meu rosto corava e o coração quase saltava pela boca. Perdia o rumo dos pensamentos, das palavras, do caminho, perdia o rumo, enfim. Era assim, e eu me lembro muito bem.

Parece que nunca vou conseguir sentir por ninguém o que eu sentia por você. Talvez eu sinta algo melhor, talvez algum dia eu tenha um relacionamento de verdade ou um amor puro e lindo. Talvez um dia eu seja a protagonista da comédia romântica mais fofa de todas. Mas nada vai me tirar a saudade que eu sinto do que eu sentia por você. Veja bem, eu não sinto a sua falta. Eu sinto falta do que nós tínhamos, uma conexão que eu achava muito valiosa para ser desperdiçada, e por isso esgotei toda a minha energia insistindo em uma história que você nunca fez a menor questão de que tivesse um final feliz. Acho que me enganei. Uma pena. Uma perca de tempo.

E mesmo admitindo que, quando olho pra trás ainda sinto saudades de tudo - do modo como nós nos entendíamos só com um olhar, ou como você adivinhava o que eu ia dizer antes mesmo que eu pudesse formular a frase na minha cabeça, ou até os nossos signos que diziam que podíamos ter sido um casal perfeito, podíamos - mesmo admitindo tudo isso, admito ainda mais alto que estou bem melhor agora. Mais feliz, mais disposta, mais viva. Porque já não gasto mais tanto tempo, energia e coração com alguém que nem sequer olha para trás pra saber se não tropecei numa dessas pedras da vida, que ficam no meio do caminho.

11.7.13


Apaixonada por palavras - Paula Pimenta

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Assim que eu vi esse livro na estante da livraria, já sabia que ia adorar. Só o título já me fez sentir uma identificação enorme com a escritora, Paula Pimenta - a autora de Fazendo meu filme e Minha vida fora de série, e assim que o abri dei de cara com a frase "sou geminiana". E sim, eu também sou geminiana e sou dessas pessoas loucas por signos, então resolvi comprar!



 É um livro de contos e crônicas, e de tanto que gostei quis postar pra vocês um texto lindo maravilhoso que dá nome ao livro:

Apaixonada por palavras

Odeio cantadas. Flores não me seduzem. Chocolates então, nem pensar. O que me comove são palavras.

No caminho de casa, passo por uma pista de cooper onde têm barras e aparelhos de ginástica. Em qualquer hora do dia ou da noite, rapazes de se fazer inveja aos galãs globais puxam ferros, correm mais do que para tirar a mãe da forca, levantam pesos, malham até o dedão do pé. Ao lado deles, garotas soltam suspiros para cada flexão de braço, lançam exclamações para cada bíceps trabalhado, fazem votação para definir qual peitoral é o mais sarado. Deixo tudo para elas. Tais rapazes não merecem um segundo olhar meu. Para mim, músculo em excesso é inversamente proporcional à inteligência.

Fim de semana. Depois de muita insistência, aceito o convite das minhas amigas para ir dançar, mesmo sabendo que me arrependerei. Lugar dos infernos. Quente, barulhento, enfumaçado. E ainda por cima tenho que escutar aquela mesma frase: "E aí, gata, vem sempre por aqui?". Fico na dúvida entre vomitar, sair correndo ou fingir que sou surda.

Outra situação: O moço é lindo. Toca violão. Minha família gosta dele. Já estou quase convencida de que é minha alma-gêmea. E então ele me manda um cartão: "Não me canço de te olhar". É, querido, vai ter que olhar para o outro lado. Cansada estou eu de quem não sabe escrever nem em português.

Mas por que eu sou tão viciada em palavras? Por ter crescido lendo enquanto minhas amigas brincavam de pique-esconde? Por minha primeira paixão ter sido o Cebolinha, nos gibis da Turma da Mônica? Por amar poesia desde que nasci? Não sei. O fato é que me desperta curiosidade quem sabe escrever o que pensa.

Garotos que escrevem bem têm um charme diferente. Suas palavras me acariciam de tal forma, que se tornam vitais para minha sobrevivência. Se eles têm tanto cuidado com a escrita, imagine o carinho que teriam comigo... Ah, os homens que sabem escrever! Alguns conseguem ser tão sinestésicos, que chego a perceber a voz deles por entre as linhas.

Os que mais me impressionam são os que adivinham meu pensamento, mesmo sem me conhecer. É indescritível a sensação de ler um texto e me identificar totalmente com as palavras do escritor. É como se ele tivesse roubado a ideia que eu ainda não havia tido, mas que já existia em mim. Emocionante perceber, na medida em que meus olhos vão descendo por sobre o texto, que existe alguém que pensa exatamente como eu.

Infelizmente, a recíproca não é verdadeira. O sexo masculino, no geral, ainda se sensibiliza mais com um corpo esculpido do que com a forma que as escritoras dão às suas frases.

No dia em que eu encontrar um que se importe mais com o que eu escrevo do que com a minha embalagem, eu me caso. Desde que a proposta seja feita por escrito. E que por trás daquelas palavras, existam óculos em vez de músculos.